Para quem não sabia ainda muito bem o que queria, Fisioterapia parecia uma escolha válida. Entre a paixão pelas Letras e o sentimento de querer fazer algo bom e útil por alguém, este último venceu na escolha final.
Enquanto Caloira, e ainda muito verde na área, deixava-me fascinar pelas histĂłrias que ouvia dos Mestres já formados, nĂŁo sĂł sobre a alegria que se recebe e que se proporciona, mas tambĂ©m sobre o quanto se aprende enquanto profissional e enquanto ser humano, atravĂ©s das incrĂveis situações de superação que nos passam literalmente pelas mĂŁos (será que podemos dizer que somos quase como uns escultores do corpo humano?)…
Apesar de, na altura, saber que a Fisioterapia actua ao nĂvel da prevenção e promoção da saĂşde, da investigação… nĂŁo deixava de me fascinar a área mais conhecida pela generalidade das pessoas – aquela que se relaciona com a reabilitação. Engloba sempre um conjunto de pessoas que sofreram alterações (umas mais drásticas que outras) nas suas vidas e que, ao longo deste processo, nem sempre aceitam a condição em que se encontram. SĂŁo, por vezes, situações muito delicadas, nem sempre fáceis de contornar, exigindo por isso, da parte do Fisioterapeuta uma grande capacidade para entender todo aquele mundo que pertence a quem Ă© tratado por ele. Torna-se fundamental adquirir (para quem ainda nĂŁo desenvolveu) uma caracterĂstica tĂŁo importante no ser humano – a empatia!
Cada pessoa tem as suas fraquezas, as suas angĂşstias, as suas limitações (quer sejam de ordem fĂsica, psicolĂłgica ou atĂ© mesmo financeira), mas tambĂ©m cada uma delas tem os seus pontos fortes, os seus talentos e as suas inspirações. Há que ter em conta toda a personalidade desse alguĂ©m que se apresenta perante a nossa pessoa. Há inĂşmeras formas de resolver um problema e há que adequá-las Ă s caracterĂsticas desse alguĂ©m. Sobretudo, ter sempre em mente que as necessidades e possibilidades sĂŁo diferentes em todas as pessoas.
Hoje, aluna do 3º ano, comprovo tudo isto com a conclusão de dois estágios maravilhosos que pintaram parte do meu percurso académico.
O primeiro estágio possibilitou o contacto com várias faixas etárias (sendo a sĂ©nior a mais trabalhada) permitindo perceber quais as melhores formas de as cativar e qual a dinâmica dos diferentes grupos. A população idosa Ă© muitas vezes esquecida e menosprezada na sociedade, mas há toda uma histĂłria e tradição que ela carrega, cheia de ensinamentos e lições de vida. Reavivando as minhas aulas de Psicologia, vejo e percebo os benefĂcios de aglutinar as instituições de idosos com as instituições de crianças, nĂŁo sĂł para ajudar a combater a solidĂŁo dos mais velhos, proporcionando momentos de carinho e alegria entre as gerações, mas tambĂ©m para desenvolver uma linha de pensamento nos mais novos em que se dĂŞ valor aos mais velhos, mudando assim, aos poucos, a visĂŁo nada saudável e pouco realista que o mundo tem acerca da importância da população sĂ©nior. Há que dar valor a quem, no passado, construiu um futuro que Ă© agora o nosso presente.
O segundo estágio, num contexto de clĂnica privada, completamente diferente do primeiro, permitiu-me treinar a adaptação da minha postura perante diferentes situações e a aprender a gerir aquilo que sentia, ensinando-me tambĂ©m a criar a tĂŁo conhecida «máscara profissional». Percebe-se que as pessoas vĂŞem o Fisioterapeuta como alguĂ©m de confiança e Ă© no ginásio de Fisioterapia onde, muitas vezes, partilham grande parte da sua histĂłria, dividem nĂŁo sĂł as suas alegrias, mas tambĂ©m o peso dos seus problemas.
Apesar de terem sido semanas intensas tanto a nĂvel fĂsico, como a nĂvel emocional, sĂŁo experiĂŞncias que levo para a vida e posso dizer que guardo na dita bagagem acadĂ©mica (que, embora ainda seja pequena, e dado o infinito mundo de conhecimento existente, se anseia por fazĂŞ-la crescer cada vez mais) um sentimento de enorme gratidĂŁo quer para com as equipas que me acompanharam sempre com a sua disponibilidade e atenção, quer para com os utentes que tive sob a minha responsabilidade e supervisĂŁo, pois eles, sem se aperceberem, dĂŁo-nos mais a nĂłs do que nĂłs a eles. E nem sabem o quanto aprendemos e o quanto ficamos a admirar a sua força, motivação e determinação!
E hoje, quase finalista, digo que Fisioterapia é mais do que uma profissão. É (aprender a) ser Humano!
Ambas as fotografias foram tiradas por mim no local do meu segundo estágio: Idealmed - Unidade Hospitalar de Coimbra.
Também podem encontrar o meu texto aqui: Uniarea