quarta-feira, 20 de junho de 2018

Falta a certeza

Anita Ekberg fotografada por Georg Oddner, 1951 (retirada do Tumblr).

Acendo o cigarro como quem pergunta à vida o que virá a seguir, depois desta azáfama de fim de caminho. Ponho-lhe a boca como se morresse à sede e guardo o isqueiro no bolso de trás, despreocupada com as horas. Sento-me. Sinto-me. Agarro nele entre dois dedos da mão esquerda e pouso-lhe a cabeça para descansar os cansaços do dia, que foi longo e pesado de papéis.

Sinto-me perdida na idade que outrora achei ser certa e segura de tudo, mas afinal nunca estamos certos de nada, mesmo que achemos o contrário.

Continuo a escrever no caderno castanho, de capa dura, que ele me deu e que ainda está meio escrito, não fosse a falta de tempo. Ele olha para mim. Vejo-lhe o rosto iluminado pelos últimos raios de sol do dia e a barba a ficar-lhe mais escura com o anoitecer.

Acabo meia dúzia de palavras à pressa só para olhar um pouco mais para aqueles olhos que me vêem tal como sou. Apago o cigarro e deixo a beata no silêncio do cinzeiro.

Olho para o mar e não tenho certeza de nada.
Mas ele está comigo, sentado ao meu lado.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Portus Cale. Porto Quente. Porto Seguro. Portugal!


Somos as casas brancas, caiadas a trinchas velhas, gastas por tanto esfregar nas paredes ásperas de grãos de areia. Paredes com cores frias, mas quentes de tanto amor dos nossos pais, avós e bisavós, construídas pelos próprios. Paredes que nos viram crescer, correr pelo pátio afora para esfolar os joelhos no cimento e na terra, que não havia estradas de alcatrão, de tanto tropeçar nas brincadeiras das ruas e vielas da aldeia que cheirava a mar, a pinhal, a rio, a serra, a mundo. Da aldeia do norte, do centro, do interior, do sul. Da aldeia saloia, do Oeste.
Somos os portões de madeira e de metal, engenhos de quem mais não podia, e feitos com o que se encontrava perdido das gentes e que a ninguém mais pertencia. Somos os pátios de cimento lascado e as estradas de terra batida por onde passavam os rebanhos e os tractores dos tios e dos avós. Somos as terras. As terras onde se cultivava tudo o que caía no nosso prato à hora da sagrada refeição.
Somos os barcos humildes que descansavam no porto seguro e esperavam por mais uma partida para a faina. Somos pescadores e navegadores. Mas somos também pais, mães, filhos e filhas que ainda esperam por regressos incertos. Fomos exploradores de meio mundo, com uma coragem indestrutível. Guerreiros e defensores da nação.
O Fado. A guitarra portuguesa. As vozes ricas em sentimentos presos ao peito, em ânsia para se soltarem na liberdade do mundo.
Os coretos e os bailaricos de Verão. As concertinas, os acordeões e as vozes agudas e estridentes dos ranchos folclóricos portugueses.
Amar. O mar. O além-mar. Somos navegadores, conquistadores e vencedores do Mostrengo do Adamastor. Fomos às Tormentas e trouxemos a Boa Esperança.
Somos Camões e Pessoa(s). Somos a língua portuguesa, a sua pátria. Somos os livros de História que contam a nossa história no mundo. Somos o nevoeiro das manhãs cerradas que esperam o regresso de D. Sebastião.
Somos os azulejos infinitos, das cores do mar, pintados com a serenidade do azul e com a pureza do branco. Somos o cozido à Portuguesa, o caldo verde e o chouriço, a chanfana e os queijos da serra, os enchidos, o bacalhau com mil e um nomes, a sardinha dos Santos Populares de Junho e as castanhas quentes embrulhadas em jornal do São Martinho de Novembro. Somos Licor Beirão e Vinho do Porto. Somos a feijoada das avós, as caldeiradas das tias, as açordas, o arroz de tomate, as pataniscas e as migas. Somos o bitoque, o prego e as omeletes. Somos os tremoços, os caracóis e a cerveja numa tarde de jogo no café.
Vermelho. Somos o sangue derramado. Verde. Somos e seremos sempre a esperança viva por todo o país espalhada. Somos lusitanos. Somos portugueses.
Somos Viana do Castelo, a terra de pescadores, com a Catedral de Santa Luzia e a Festa da Nossa Senhora da Agonia, onde o lindo Coração de Viana, de cores de ouro reluzente, é rei.
Somos Braga, o coração do Minho. Temos o Gerês e o seu encanto, o Santuário do Bom Jesus do Monte e a Sé mais antiga do país. Temos a viola braguesa e o galo de Barcelos. Saboreamos o bacalhau à moda de Braga, as papas de sarrabulho, os rojões, as frigideiras do cantinho e o pudim abade de Priscos.
Somos Vila Real e os passeios nos verdes jardins. Temos as Termas de Chaves e o Vidago Palace, as francesinhas deliciosas, vindas dos céus, muito vinho, carnes e enchidos, os pastéis de Chaves e as cristas de galo para saborear!
Somos Bragança, transmontanos de alma e coração, vizinhos de Espanha, cosidos com agulha numa costura à fronteira. Temos o Castelo e a Domus Municipalis, jardins lindos, muitos espaços verdes e o melhor Instituto Politécnico do país pelo 5º ano consecutivo. Temos os caretos de Podence e comemos posta à Mirandesa e butelo com casulas.
Somos Porto. Somos Douro. Somos os que fazem das tripas coração. Trocamos os «b» com os «v», laureamos a pevide por aí, e com a larica marcham as francesinhas e o vinho do Porto das caves do Cais de Gaia. Somos a Ponte de D. Luís, a Sé e o Paço Episcopal. Somos frontais e honestos e, se nos chatearem muito, mandamo-los dar uma volta ao bilhar grande e andor violeta.
Somos Aveiro, a Ria, a Veneza lusitana, e os moliceiros que por ela navegam. Somos as praias e os palheiros de Costa Nova. Somos os insubstituíveis ovos moles, as tripas inesquecíveis e o Leitão à Bairrada.
Somos Viseu. Temos a Sé, a Cava de Viriato, o Painel de Azulejos no Rossio e o Parque Florestal do Fontelo. Comemos vitela à Lafões, Viriatos e Rotundinhas.
Somos Guarda. Somos a Serra da Estrela, a neve no Inverno português. Temos a Sé Catedral, o Parque Ecológico de Gouveia, a Serra da Gardunha e a Capela de Nossa Senhora do Miléu. Comemos enchidos, caldo de grão, cabrito, o arroz de carquesa, o ensopado de cogumelos de Trancoso, a sopa de castanhas e o tão conhecido Queijo da Serra.
Somos Coimbra. Somos os estudantes com o coração preso numa cidade. Somos a Cabra, a Universidade, o Mondego, os fados e a eterna saudade. Somos a Quinta das Lágrimas e guardamos Pedro e Inês nas nossas memórias. Somos a Biblioteca Joanina. Temos a Académica, a Briosa e o Basófias.
Somos Castelo Branco. Somos a capital da Beira Baixa e temos a aldeia mais portuguesa de Portugal, as ruínas de Idanha-a-Velha, com granito contador de histórias romanas, as encantadoras Aldeias do Xisto e as doces Cerejas do Fundão.
Somos Leiria. Somos todo um Pinhal a renascer literalmente das cinzas com todas as forças e esperanças que nos restam. Somos o Santuário de Fátima, único e maravilhoso. Somos o Núcleo de Arte Contemporânea, na Marinha Grande e saboreamos as brisas do Liz com uma ginja de Óbidos a observar e a absorver toda a paisagem que o Castelo nos proporciona.
Somos Santarém. Somos Igrejas e Conventos, somos o Mercado, o Chafariz, a Casa do Brasil e o Jardim das Portas do Sol. Comemos ensopado de borrego e queixadas de porco assadas no forno, massa à Barrão, ensopado de enguias e petingas de escabeche. Adoramos as Celestes de Santa Clara, os pampilhos, queixinhos do céu e os arrepiados de Almoster.
Somos Portalegre. Somos o Castelo de Marvão, o Mosteiro de Flor da Rosa, o Convento de São Bernardo e o Aqueduto de Elvas. Somos a Serra da Penha e Castelo de Vide. Comemos sericaia, rebuçados de ovo, cabrito no forno ou ensopado, sarapatel, sopa de cação, boleima e amêndoas Dr. Portalegre.
Somos Lisboa e Tejo. Somos os Alfacinhas da cidade, as tias de Cascais e os Saloios do Oeste. Temos o eléctrico, os Pastéis e Torre de Belém, o Palácio da Pena e queijadas de Sintra. Temos o Palácio e Convento de Mafra, as Linhas e o Carnaval de Torres Vedras. No Verão, a Ericeira e Santa Cruz transformam-se em mares de gentes com fome e sede de praia.
Somos Setúbal. Somos raposas e Serra da Arrábida. Somos golfinho roaz-corvineiro e Estuário do Sado. No prato, temos sempre peixe grelhado, choco frito, barquinhos de laranja, tortas de Azeitão e fogaças de Palmela. No copo ou na garrafa, o Moscatel.
Somos Évora. Temos o Jardim e o Templo de Diana, o Jardim do Paraíso, o Aqueduto da Água da Prata, Chafariz, a Sé e a Universidade. Temos Igrejas, Conventos e Museus únicos. Na mesa, temos bifanas, açordas e sopas da Cação e como sobremesa o pão de Rala, as encharcadas e as Barrigas de Freira.
Somos Beja. O convívio à volta da mesa nos fins de tarde acompanham-se com torresmos, cabeças de borrego assadas, açordas, sopas de pão, fígado de coentrada, toucinho-do-céu, trouxas-de-ovos, cenourinhas de azeite e alho, azeitonas, tudo acompanhado com o autêntico pão alentejano e um copo de vinho. Somos o Castelo, a Torre de Menagem, o Museu Regional no Convento Nossa Sra. da Conceição, a Igreja de Santa Maria e o Museu de Dona Leonor. Somos as vozes do Cante Alentejano.
Somos Faro. Temos a Sé, a Igreja do Carmo, a Capela dos Ossos e o Castelo. Temos mil praias e a Praia da Falésia. Aqui nos Algarves, o Verão de Portugal, somos a bola de Berlim, que é fresca e fofinha, com e sem creme. Temos folclore, cestos de vime, alfarroba e comemos muito peixe, marisco e figos.
Somos as paisagens paradisíacas e os ananases dos Açores. Somos São Miguel, Santa Maria, Faial, Pico, São Jorge, Flores, Corvo, Terceira e Graciosa.
Somos as semilhas da Madeira, somos o Porto Santo, as Desertas e as Selvagens.
Somos muitos e grandes.
Somos tanta coisa num pedaço de terra tão pequeno.
Somos Portugal!

Vamos partilhar isto por Portugal fora?
Muito obrigada a quem, com a sua paciência, deu umas palavrinhas sobre a sua região, com todo o carinho, para tentar pintar um pequeno pedacinho de todos os pontos do nosso país tão rico e tão bonito. Pena é não conseguirmos dizer tudo de cada distrito, em tão poucas palavras. Ter gente amiga por este Portugal fora é uma bênção!

Estejam à vontade para partilhar connosco, nos comentários, mais pormenores da vossa região que não estejam aqui 😊
Imagens retiradas do Google.

terça-feira, 5 de junho de 2018

CLAVE DE SOL - Festival de Tunas Mistas - XIII Fast'À Noite


Nos dias 20 e 21 de Abril de 2018, realizou-se mais uma edição do XIII FAST’À NOITE - Festival de Tunas Mistas da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra, organizado pela Tu Na D’ESTES. É com enorme gosto que damos continuidade a um evento como este. É uma honra poder receber várias tunas de diversos pontos do país na nossa cidade da eterna saudade.




A Noite de Serenatas teve lugar no Café Santa Cruz, mesmo no coração de Coimbra, local emblemático e rico em história. O Grupo Académico Serenatas de Portalegre acompanhou-nos como grupo convidado na abertura desta noite fantástica.

A Noite de Festival ocorreu no Auditório António Arnaut, da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra. Para dar início ao espectáculo musical, tivémos a companhia d’Os Alfazema, grupo musical de fado, música popular e tradicional portuguesa, composto por elementos da Tu Na D’ESTES, unidos pela amizade e paixão pela música.



As Tunas a concurso que nos visitaram vieram da bonita cidade de Bragança, a RaussTuna (Tuna Mista de Bragança), da nossa bela Invicta, do Porto, a Educatuna (Tuna Mista Da Escola Superior De Educação De Paula Frassinetti) e da nossa capital, Lisboa, a TUBA (Tuna Universitária de Belas-Artes) e a Magna Tuna Apocaliscspiana (Tuna Académica do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas).

Tivémos ainda dois momentos musicais distintos, sendo o primeiro «Verdes anos» e «Canção» (adaptação de Carlos Paredes) interpretadas por Rui Carvalho na guitarra portuguesa e Tiago Costa na guitarra clássica, na abertura da Segunda Parte do XIII Fast`A Noite. O segundo, «Maria» (adaptação de João Farinha & Fado ao Centro), interpretado por Sérgio Sabença da Silva (voz), Rui Carvalho na guitarra portuguesa, André Pinto e Igor Sá na guitarra clássica.

Houve ainda um pequeno vídeo dedicado aos Finalistas da Tuna - eu e a querida Jéssica - e foi uma emoção vê-los a cantarem o «Sonhar» enquanto passavam o vídeo!(Podem ver no vídeo que anexei em baixo).
Muito obrigada, Tuna! Ficarão para sempre no meu coração 💙💛


Podem assistir a todas as actuações através do Canal de Youtube da Tu Na D'ESTES, AQUI 😊🎶

Por fim, revelam-se os prémios tão esperados:
...



- Melhor Serenata: TUBA

- Melhor Solista: TUBA

- Melhor Estandarte: RaussTuna

- Melhor Original: Educatuna

- Melhor Adaptação: Educatuna

- Temático: Educatuna

- Melhor Pandeireta: Magna Tuna Apocaliscspiana

- Tuna Mais Mista: Magna Tuna Apocaliscspiana

- Tuna Mais Tuna: RaussTuna


- FAST'À NOITE (Melhor Tuna): Educatuna