The Ginger Bookworm


Guardava a sua dor para si e sentia tambĂ©m a dor dos outros. A dor. Respirá-la! Deixá-la entrar nos seus pulmões e permitir que tomasse conta do seu coração.
Cansou-se de se preocupar consigo. Desistiu de si!
Vivia com a melancolia da vida em cima dos seus ombros. Com o peso do mundo no seu rosto. Todo o ruĂ­do da cidade o escurecia. Tornava-o cada vez mais exausto e empurrava-o para a sombra. Havia anos que colhia a dor do mundo e escondia a sua fragilidade nas entranhas. Aparentava felicidade que nĂŁo possuĂ­a e deixava as lágrimas quentes para a noite solitária. 

Perdera toda a esperança. 
Agora, deixa-se envelhecer com o tempo. Esquece o passado, respira o presente e ignora o futuro.
Fixei-o. Tinha a tristeza nos olhos! 
Como tratar uma alma assim, tĂŁo sĂł, tĂŁo apertada de sofrimento?
Um abraço nĂŁo chega. Nunca chega. Ajuda, mas nĂŁo chega! 
Há coisas que nĂŁo se curam com um abraço e todos o sabemos! É um gesto tĂŁo bonito e tĂŁo poderoso! Quem o recebe sente uma vontade de continuar, por momentos... mas, por vezes, rapidamente se desvanece com a tomada de consciĂŞncia da realidade. E, nessas horas, deseja-se a inconsciĂŞncia! Quem o dá, sente, muitas vezes, que Ă© insuficiente e nĂŁo sabe o que mais fazer para ver um sorriso honesto. Quem o dá sente-se tantas vezes impotente! 

Há situações em que não podemos dar muito mais do que um abraço! Acredito (quero muito continuar a acreditar) que esse abraço seja reconfortante e sentido com todo o coração, porque apesar de tudo não deixa de ser um abraço e não deixa de ter um pedacinho meu lá dentro! E nesses dias, um abraço é melhor do que nada, um abraço pode ser o melhor que esse alguém recebeu nos últimos tempos.


A angĂşstia Ă© viciante, sabiam?
ApĂłs aquelas duas tentativas de sair deste mundo, sem sucesso, sinto-me a coisa mais inĂştil Ă  face da terra. Nem deixar de viver consigo!
Esteve aqui a pessoa mais importante para mim e eu não fui capaz de lhe falar. Só olhei para aqueles olhos aflitos e assustados e deixei-me chorar à sua frente. A minha fraqueza tinha acabado de acordar diante dos seus olhos. Mas eu já não conseguia mais. Já tinha feito o que tinha a fazer e já tinha amado o que me fora dado para amar... e foi mais do que suficiente. Eu é que fui fraca. Não consegui dizer nada. A minha voz tinha desaparecido e uma tosse seca e sem fim tomava conta de mim. Sentia-me a morrer, mas a minha vida insistia em ficar comigo! Ela deu-me a mão e contou-me a sua história. Esperava que eu a ouvisse e que não me sentisse mais sozinha. E não senti. Mas há coisas que sinto dentro de mim que não consigo explicar de maneira nenhuma. Aquela criação de ainda mais laços e toda aquela intimidade nua e crua, ali, naquele quarto de hospital, fez-me ver a verdadeira pessoa que ali estava. Alguém como eu. Alguém com sonhos apagados e realidades acesas na mente. Alguém que havia estado no mesmo lugar que eu, por motivos completamente diferentes, mas de estranha semelhança no modo de lidar com conflitos. A diferença é que ela era uma pessoa incrivelmente mais forte e determinada do que eu. Ela mereceu passar por cima de tudo e conseguir continuar. Mereceu cada instante de felicidade que lhe foi proporcionado depois. É uma mulher. Uma grande mulher! Mas eu sou pequena.

*fictĂ­cio

Todos ali a enganar o engano. A dizerem adeus aos que sabiam não voltar, com um sorriso, disfarçando a angústia das entranhas. Cada bomba lançada deixava a morte atrás de si. Cada som aterrador a romper a terra com a força do vento era como menos um dia de vida em cada um deles. Era menos uma esperança, menos um sorriso, menos fé, menos vida a cada dia que passava. Todo aquele pesadelo tornava a fome um mal menor.

Chegaram dias em que o sol era um estranho. Chegaram noites em que o silêncio era uma bênção. E como o hábito faz o monge não tardou que aquele ar, respirado por toda a cidade vezes sem conta, saturado de medos e desabafos, se tornasse num veneno cujo antídoto se encontrava junto do fim da guerra. Junto ao horizonte, lá longe, quase, quase inalcançável.

Dia 1 de Janeiro de 2015 assisti ao pĂ´r-do-sol.
Já não o fazia há imenso tempo e começar o ano assim fez-me ter calma!
Falei com uma pessoa muito importante para mim que já cá não está há algum tempo e que me faz imensa falta... Pode parecer estúpido, mas faço-o porque a minha avó foi muito importante para mim e simplesmente não consigo acreditar (mesmo depois de tanto tempo) que ela já não está Aqui, Agora.

Desabafei com ela e pedi-lhe para que as coisas más morressem!

Subi ao terraço da casa do meu padrinho e fiquei ali, sozinha, no silêncio, no frio, com os cabelos ondulados a dançar com o vento triste. Olhei para o mar, para o horizonte, para o céu. Havia tons de lilás a molharem-se na água salgada, como se o céu fosse uma aguarela. O sol estava cor-de-rosa. Ouvi o ar e o mar e as nuvens e o sol. Senti, falei, chorei, sorri. Tive Saudade. Tenho Saudade. Sinto-me perdida. Quando começo a chorar, não consigo parar.


PorquĂŞ tĂŁo doloroso o amor?
Por que se sofre tanto por algo que Ă© tĂŁo bom?

Anoitecer de Março

Numa tarde de Março, aqui em casa, só a ouvir a Natureza.
Colocar volume no máximo para poder ouvir a vida do início da noite.
Corvos, um pássaro e outro, morcegos. Cães.
A noite a chegar, pé ante pé.

Em resposta ao Projecto da Andreia. Espero que tenham gostado!

Objectiva.

Luz.

A câmara permanecia estática, sem movimento, vibração ou qualquer outro factor que pudesse alterar aquele estado de serenidade, de perfeição na ausência de movimento. Esperava pelos momentos certos, pelos instantes únicos que existem no decorrer do tempo, pelo raio de luz solar que iluminava sublimemente a gota de orvalho cintilante que escorregava da folha verde para o chão, pelo bater compassado das asas de um beija-flor que, tal como o nome permite concluir, voa sobre jardins perfumados, dando beijinhos às princesas do baile primaveril.

Impaciente, a câmara largou um som como um clique e captou uma imagem quase digna de ser chamada perfeita. Nesse instante, toda a essĂŞncia da (im)possibilidade da futura/passada refeição do camaleĂŁo ficara gravada na fotografia. Toda a imagem englobava uma certa complexidade nascida da Natureza, uma esquematização do ecossistema e das interacções entre as espĂ©cies. Mas nĂŁo sĂł o ambiente foi captado. TambĂ©m a temporalidade da acção permanecera naquela «tela». NĂŁo Ă© bem nĂ­tida para os que olham apenas. É necessário ver! É aquilo que ajuda algo a ser o que Ă©. Um estado provisĂłrio. Está presente em todo o lado, ao mesmo tempo, quase como Deus – omnipresente – mas nunca como ele – Perfeito.

Podemos verificar que o Tempo nĂŁo Ă© perfeito… por vezes, tem demasiada pressa e comporta-se como uma criança, inclinando-se para o caminho oposto daquele que deveria ser seguido. A pressa traz consigo a imperfeição e, por isso, pedi ao Tempo que tivesse calma, para ser possĂ­vel a aproximação (embora escassa) Ă  perfeição. E ele, teimoso, insistiu, como sempre, em ter pressa!

Em resposta ao Projecto da Andreia. Espero que tenham gostado!






Ter que ter

Ter que ter.

Ter que ter força, coragem. Principalmente uns grandes pulmões, porque se vai precisar de respirar fundo para nĂŁo explodir milhares de vezes. É o ar fresco que se vai ter de conseguir engolir para desfazer aquele nĂł que há na garganta. Ă‰ a respiração que se vai ter de controlar quando se estiver prestes a cair. SĂŁo as lágrimas que se vĂŁo ter de esconder lá bem no fundo para conseguir fazer parecer tudo tĂŁo bonito com aquele sorriso perfeito. As saudações simpáticas. As vozes interiores caladas no mundo e insuportáveis na cabeça.

Temos que fazer aquele esforço de não nos queixarmos porque estamos cansados, chateados, deprimidos, tristes, sem razões para continuar. Temos de fazê-lo pelos outros.Temos de fazer de conta que tudo corre bem e agir como se tudo estivesse bem. Temos de ir às aulas e, nesta altura do campeonato, se não ouvirmos o que se diz, pelo menos tentar fazer parecer que se ouve alguma coisa e que fica tudo muito bem estruturado nos apontamentos do caderno. Fantástico.

Os exames são aqueles papéis que todos adoramos e veneramos. Adoramos a escola, os nossos resultados e o facto de termos de decidir o nosso futuro naquele mês deixa-nos super felizes. Estou a ficar sem carga irónica. Já não sei que mais sarcasmos e família das ironias posso usar aqui... são tantos que não os consigo contar.

Digo que sim, que é giro, que mal posso esperar para ir para a Universidade, que tenho boas expectativas do que possa acontecer, que hei-de gostar, mais tarde ou mais cedo, do curso que pretendo tirar. Também digo que não quero pensar muito antes dos exames porque nunca se sabe o que pode acontecer, que só o tempo dirá. E respondem que faço bem, que devo continuar determinada, manter a calma durante os exames, que tudo se resolverá, que hei-de obter bons resultados e que conseguirei entrar logo na primeira opção.

Se acredito no que digo? Jamais. Mas digo-lhes aquilo que querem ouvir!
Se acredito no que dizem? NĂŁo sei. Já nem consigo ouvir o que dizem, pelo menos nestes Ăşltimos dois dias. Já sĂł vejo livros, nĂşmeros, letras, livros outra vez, lua, sol, chuva, nuvens, escola, livros, livros, nĂşmeros, papel, papel, papel. Já sĂł cheiro cafĂ©, água, água, água, cafĂ©, leite, cama, banho, cafĂ©, cafĂ©. Já sĂł ouço eu, a minha cabeça, o relĂłgio, o despertador, o duche, toque para entrar, toque para sair, passe de autocarro, chave na porta de casa, quarto a encher-se de eu e de mim, teorias, teoremas, informações adicionais para os exames nacionais, vozes de fundo em salas de aula que falam de tudo e de nada e alterações de programas pelo MinistĂ©rio que nĂŁo lembram ao diabo.

Já deveria saber quem sou.
Parabéns, rapariga alguém! Não consegues definir a tua pessoa. Como conseguirás definir a tua vida?

Em resposta ao Projecto da Andreia.


Este texto foi escrito há 6 anos, na altura dos Exames Nacionais como Prova de Ingresso na Faculdade. Estávamos todos esgotados e a chegar próximo dos limites. Muita pressão e muita ansiedade reinavam naqueles dias.


A ideia de que algo meu fica por aqui, seja lido ou nĂŁo, Ă© de certa forma libertador, nĂŁo sei bem explicar porquĂŞ.

O que importa realmente Ă© conhecermos várias perspectivas de todos nĂłs, em relação a assuntos variados, mas que, de certa forma, nos tocam a todos. Acho que Ă© cativante «ler pensamentos» de alguĂ©m que nĂŁo conhecemos como achamos que conhecemos e tentar perceber esses pontos de vista.

Existem inĂşmeras situações do quotidiano dignas de serem contadas e partilhadas. Ă€s vezes, achamos que o mundo devia conhecer determinada pessoa ou determinado acontecimento. E Ă© incrivelmente fascinante ver isto por aqui - «coisas» tĂŁo simples, mas que ganham um valor inimaginável quando partilhadas. Detalhes tĂŁo perfeitos que nĂŁo seriam tĂŁo perfeitos se os guardássemos sĂł com a nossa pessoa.

A partilha, seja ela de gestos, de palavras, música ou outros gostos, é demasiado importante para ser ignorada. É com a sua ajuda que aprendemos a crescer, a desenvolver a nossa forma de estruturar o pensamento e de sustentar uma opinião.

E é por ter-vos desse lado que faz mais sentido continuar por aqui. É por ter alguém que se interessa em ler, ver, ouvir e sentir o que partilho que tenho um carinho especial pela Blogosfera.

Parabéns, Bem-Me-Quer 🌼
Parabéns, queridos leitores 🌼
Obrigada por tudo!
Bem-Vos-Quero!

Ă€ procura dos sorrisos do campo, embrenhada no sangue silvestre.

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